domingo, 16 de agosto de 2026

HIP-HOP: movimento de resistência ou consumo?

 AS RAIZES DO HIP HOP

Alguns pesquisadores dizem que o Movimento Hip Hop surgiu nos guetos dos Estados Unidos da América, a partir da união de diferentes expressões artísticas. Aos poucos foram incorporadas ao ambiente urbano de Nova Iorque, na passagem dos anos 60 para os anos 70. Nesse período, os E.U.A. passavam por intensas discussões sobre os direitos humanos, por causa da marginalização de negros e latinos na sociedade de Nova Iorque. Os líderes da comunidade negra procuraram disseminar o direito e a igualdade social entre negros e brancos, pelo respeito racial entre si, contra a segregação racial e a violência com a população negra.

A palavra Hip Hop é de origem estadunidense, e significa “saltar movimentando os quadris” (Hip: Saltar; Hop: movimentando os quadris). O termo foi criado pelo DJ Afrika Bambaataa, fundador da organização Zulu Nation. Foi um dos fundadores da organização Zulu Nation, no Bronx, Nova Iorque, em 12 de Novembro de 1973. Sua intenção era a união entre negros, jovens e pobres desfavorecidos dessa comunidade. Essa organização realizava festas com a intenção de diminuir as brigas e as confusões entre os jovens de diferentes gangues. Realizavam também alguns projetos sociais como campanhas de agasalho, arrecadavam comida, etc. Bambaataa idealizou a união dos elementos do Hip Hip, o Break (dança), o Graffiti (artes visuais), o DJ (a música)e o MC (o cantor – RAP). Pois, faziam parte do mesmo universo cultural, por incorporarem um caráter de protesto.

Os anos 60 para os negros dos E.U.A foram um tempo de muitas batalhas e confrontos com a polícia. Foi nesse contexto que o Movimento Hip Hop se originou, agrupando diversas práticas culturais que tinham um objetivo em comum, fazer críticas a estrutura social. Essas práticas estão associadas a elementos da música e de expressão corporal. O ponta pé, inicialmente foi com o jazz, na década de 50. Aconteceu uma expansão e diversificação de estilos, colocando os jovens como produtores musicais, na década de 70, por meio do RAP.

A segunda metade do século XX foi um período de intensos conflitos, principalmente articulados por grupos de jovens. A causa de muitas revoltas foi a Guerra do Vietnã (1965-1975). A maioria dos soldados recrutados para a linha de frente era de origem negra e latina.

Este ambiente influenciou bastante os precursores do Movimento Hip Hop. Uma das formas de expressar a indignação foi através do Break. Muitos movimentos preservados ainda hoje, refletem o corpo debilitado dos soldados que retornavam das guerras, ou então a recordação de um objeto utilizado no confronto. (MARTINS, s/d).

(DESENHO: O Giro de Cabeça (Head Spin) – simboliza os helicópteros utilizados durante a guerra do Vietnã).

Você sabe como e quando o movimento Hip Hop chegou ao Brasil?


No Brasil, a introdução da cultura Hip Hop se deu durante o Regime Militar (1964-1985). Nesse período, ocorreu a proliferação de “bailes black” nas periferias dos grandes centros urbanos, especialmente em São Paulo. Embalados pela música negra estadunidense, milhares de jovens se reúnem nos bailes de final de semana, frequentados principalmente por jovens negros e pobres em sua maioria. (DAYRREL, 2002)

Quando o Movimento Hip Hop começa a ser difundido, grandes empresários e algumas esferas do governo sentem-se incomodados com a repercussão desse movimento. Um reflexo desse incômodo se deu através da mídia, que se apropriou do Hip Hop massificando essa cultura popular, fato que possibilitou sua maior difusão, especialmente em revistas e jornais. Para a massificação da cultura popular foi preciso extrair do movimento as atitudes de protestos e a luta racial, substituindo por elementos mais simples, acessíveis e desejáveis a todos, como dinheiro, status, sexo e drogas. 

Ao ser apropriado pela mídia e transformado em uma cultura de massa, o Movimento Hip Hop foi marginalizado e criminalizado, pois não era interessante dos brancos permitirem que uns grupos de pessoas negras disseminassem um discurso crítico sobre a realidade social. As pessoas que não tinham contato mais próximo com esse movimento de luta e resistência social, entendiam que o Movimento Hip Hop era constituído por criminosos, bandidos, assassinos e usuários de drogas, pois era essa imagem transmitida pelos meios de comunicação. Esse tratamento, dado principalmente pela mídia, se estende até os dias atuais, pois convivemos com uma censura que se encarrega de transformar fatos corriqueiros em grandes feitos político-administrativos dos governantes ou de omitir e maquiar fatos desabonadores de sua imagem. “É a mídia transformando a política em espetáculo, usando para isso os novos meios tecnológicos e do campo da informática para produzir efeitos considerados desejáveis pelos detentores políticos e econômicos do poder.” (PEDROSO, 2001, p. 55).

Contudo, o movimento expressava, através de seus elementos, a realidade principalmente da grande periferia. Por ter um caráter de reivindicação social, o Movimento Hip Hop preocupavam-se com a formação política de seus participantes e da sociedade. Nesse sentido, a busca pelo conhecimento faz parte de seu compromisso, pois procuravam compreender como se estruturam as relações sociais.

Não podemos negar que a classe dominante, isto é, os grandes empresários e detentores do poder social, político e econômico, tem condições de monopolizar os meios de produção e, portanto, de comunicação. Dessa forma, possuem certa autonomia para direcionar as ideias e os posicionamentos que as pessoas têm sobre a realidade. Pois, atualmente, sabemos que é pelos Meios de Comunicação Social (MCS), isto é, rádio, TV, jornais, internet e outros, que temos uma referência sobre o mundo, que conhecemos e visualizamos outras culturas, que temos contato com o que existem com o que se publica ou com o que se faz.

Por causa dessa indústria midiática, que atualmente, quando se ouve falar em Hip Hop, é comum esta manifestação cultural estar associada a drogas, criminalidade, as marcas de roupa, joias, entre outros, pois estas são formas de transformar uma cultura popular, e um movimento social de resistência, em mercadoria.

No entanto, com o passar dos anos o próprio Movimento Hip Hop conseguiu encontrar umas ‘brechas’ para difundir seu real interesse, e algumas pessoas começaram a entender, respeitar, escutar o som criado por seus integrantes. Um exemplo disso são as posses, isto é, grupos que congregam rappers, graffiteiros e breakers de uma mesma região. Estes grupos estão envolvidos em atividades artísticas, de ação comunitária e de formação política, comprometidos com a cultura do Hip Hop. Muitos destes grupos também estão envolvidos com entidades de movimentos negros, sindicatos, partidos políticos, palestras, apresentações teatrais etc.

Os integrantes desse grupo repudiam a mercantilização do Hip Hop, isto é, transformá-lo num simples produto para ser vendido por empresas que comercializam roupas, músicas e organizam shows. Uma das formas de resistir a esse processo se expressa na criação de linguagens próprias. Por exemplo: integrantes do Movimento Hip Hop inventaram o termo “Hip Roupa”, para definir as pessoas que tem o hábito de utilizar roupas de marcas associadas ao Hip Hop, mas que desconhecem o significado deste enquanto movimento social. Outra forma de resistência está na difusão do Movimento Hip Hop através das Rádios Comunitárias, que divulgam músicas e ações sociais realizadas junto a comunidade, mostrando uma visão muito diferente da que vem sendo trazida pelos grandes meios de comunicação.

Diante dessa realidade, muitos grupos comprometidos com a luta social se recusam a se inserir em determinados espaços da mídia, por acreditar que estes acabam por limitar e até distorcer os sentidos efetivos dos movimentos de resistência. Será que seria uma das razões pela qual o grupo musical Racionais MC se recusam a aparecer na televisão?

Os elementos do hip-hop.

Hip Hop é considerado um movimento que envolve elementos distintos: o RAP (MC + DJ), o Break e o Graffiti. A união desses elementos configurou, historicamente, um movimento cujo objetivo é criticar uma situação social desfavorável e mobilizar a sociedade para lutar por uma mudança principalmente de consciência. Vamos conhecer um pouco mais sobre cada um deles?
1. DJ (disc jockey) – responsável pela base instrumental. O DJ utiliza ferramentas tecnológicas para produzir a base da música do hip-hop, como picapes (os antigos toca-discos), o mixer para realizar manobras e sintetizadores.
2. MC (mestre de cerimônias) – responsável pela condução do som e da festa. Assume o controle do microfone e agita o público.
3. Grafite – (ou graffiti , como preferem os grafiteiros) são desenhos e escritas feitos em muros.
4. Rap – gênero musical.
5. Gíria – dialeto da periferia contido nas letras das músicas, nos muros e no corpo.
6. Beatboxing – são os DJs que criam o som usando a boca como instrumento.
7. Streetball o basquete de ruaque integra o universo hip-hop por meio da vestimenta de seus praticantes (camisas largas), do local onde os movimentos são ensaiados (ruas e parques) e da trilha sonora presente nas partidas (rap).
8. Breaking – expressão corporal do hip-hop representado por b.boy e b.girl.

Uma das constatações que podemos fazer é que a realidade sobre do movimento Hip Hop apresenta inúmeras contradições, quando analisamos suas diferentes formas de existir socialmente, desde o seu surgimento até os dias atuais. Ou seja, percebemos que este movimento surgiu com um propósito de resistência, mas ao longo dos anos foram dadas novas roupagens a ele, passando a aderir inclusive aos modelos de consumo e de mercado vigentes. O Movimento Hip Hop precisa ser entendido nas suas contradições, pois, da mesma forma que a cultura do Hip Hop influencia a sociedade, esta também influencia o Hip Hop.

Bibliografia:

ANGULSKI, Cíntia Müller; FIDALGO, Mario Cerdeira; NAVARRO, Rodrigo Tramutolo. Hip – hop – movimento de resistência ou consumo? In: Vários Autores. Educação Física. Curitiba: SEED – PR, 2006. Pg. 227 a 246.

OKIMURA-KERR, Tiemi; ULASOWICZ, Carla; MERIDA, Fernanda Vieira (et al). Universo Hip Hop. Se liga na Educação Física, 7º ano: manual do professor. 1º ed. São Paulo: Moderna, 2022. Pg. 40 a 53.



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