domingo, 22 de novembro de 2015

Jornal do povo - O futebol para além das quatro linhas


O FUTEBOL PARA ALÉM DAS QUATRO LINHAS
Santos, F. A. dos. Cássia, R. de.

O que poderemos descobrir se olharmos por trás da cortina de um espetáculo de futebol? O aluno cauteloso ao olhar diria:
“O futebol é um jogo, um esporte e não possui cortinas para olhar-se por trás. Outro aluno, mais audacioso, poderia ainda responder: eu sei o que acontece por trás, até porque, eu vivo no “país do futebol”, nasci com esta manifestação corporal impregnada em mim. E você, o que responderia?”

O futebol alcança importância gigantesca em nosso país, a ponto de se afirmar ser este o país do futebol. Por isso, você está convidado a espiar, através da cortina, e descobrir os ensaios e ajustes desta apresentação, bem como, aprofundar seus conhecimentos sobre o que pode vir a ser o futebol, para além das quatro linhas que circunscrevem o campo de jogo.

“Esporte é Saúde”,
“Esporte é Energia”,
“Esporte é Integração Nacional”.

Tudo verdade e tudo mentira. Claro que o esporte ajuda a integração nacional. Mas, iniciaremos nossa discussão sobre o futebol como ópio do povo.
Ópio é um analgésico muito potente, e faz nosso cérebro funcionar mais devagar. Disto é possível supor o porquê da expressão que relaciona o futebol a uma espécie de contaminação da consciência crítica do ser humano.
A consciência é formada a partir de inúmeras questões de ordem política, econômica e ideológica, que assumem importância em determinados períodos históricos na conformação ou efervescência da população.
A ideologia, conceito do qual tanto ouvimos falar, tem, na maioria das vezes, seu real significado pouco discutido. Você já deve ter ouvido falar que cada um tem uma ideologia, ou que devemos ter nossas próprias ideologias. Será que ideologia é, então, a mesma coisa que ideais a serem alcançados por cada um de nós?
O filosofo e pensador Karl Marx (1818-1883), conceituou ideologia a partir da dinâmica da luta de classes. Ou seja, para ele, a ideologia está colocada na luta entre aqueles que dominam e aqueles que são dominados.
Assim, os dominantes apresentam suas idéias como únicas válidas e verdadeiras e perseguem, excluem ou exterminam aqueles que as contestam.
A ditadura militar vivida pelo Brasil, entre os anos 60 e 80 do século XX, é um bom exemplo disso. Você já ouviu falar das torturas aplicadas àqueles que não “seguiam a ordem” estabelecida, ou contestavam o governo? Do exílio de autoridades e pessoas comuns que fugiam do país para não serem mortas, permitindo que o governo autoritário mantivesse a sua “ordem”? Enfim, nossa história está repleta de acontecimentos em que a ideologia das classes dominantes era imposta como doutrina, impossível de ser contestada.
Mas como a ideologia pode ser transmitida à população? Por meio de vários canais, tais como: a mídia televisiva, os jornais, revistas, discursos, ou até mesmo as leis de censura, próprias dos governos autoritários, como foi o caso do Brasil no período do regime militar.
Os defensores do futebol, como ópio do povo, entendiam este esporte como uma das possibilidades de veiculação ideológica do pensamento da classe dominante.
Na década de 70, para neutralizar a oposição ao regime, o governo fez uso de vários instrumentos de coerção. Da censura aos meios de comunicação, às manifestações artísticas, às prisões, torturas, assassinatos, cassação de mandatos, banimento do país e aposentadorias forçadas, espalhou-se o medo e a violência. Os setores organizados da sociedade passaram a viver sob um clima de terrorismo, principalmente após o fechamento do Congresso Nacional, em 1966.
Para amenizar essas crises, o governo do presidente Médici (1969-1974) lançou mão do futebol como possibilidade de desviar a atenção da população dos conflitos políticos da época. O objetivo era que, ao invés das pessoas saírem às ruas para participar de manifestações políticas, ficariam em suas casas torcendo pela seleção brasileira numa “corrente pra frente”, como diz a música de Miguel Gustavo, “Pra frente Brasil”.
O governo militar utilizou-se da vitória da seleção, no mundial de 1970, para desviar a atenção da crise econômica, dos problemas sociais e políticos e, principalmente, das atitudes autoritárias relacionadas às torturas, perseguições e mortes, freqüentes naquele período triste de nossa história.
Tanto em 1970 como em 2004, ou em outras vitorias da seleção em campeonatos mundiais, o futebol funcionou como válvula de escape para os problemas sociais. O interesse do governo Médici, neste evento, foi distrair a população, “aliviar” conseqüências da instabilidade política do país em questão com o uso do papel simbólico que o futebol assumiu historicamente.
O futebol apresenta, atualmente, como uma identidade nacional. Um esporte de manifestação cultural do povo e constituidor da identidade da nação brasileira.
“Como um esporte, ou jogo, pode se constituir num objeto que identifica uma nação? Identidade estranha quando se pensa em um esporte que veio de fora do país e hoje anunciamos aos quatro cantos, como se fosse nossa invenção”.

Segundo o antropólogo Roberto DaMatta,
“... sabemos que o futebol brasileiro se distingue do europeu pela sua improvisação e individualidade dos jogadores que têm, caracteristicamente, um alto controle da bola. Deste modo, o futebol é, na sociedade brasileira, uma fonte de individualização e possibilidades de expressão individual, muito mais do que um instrumento de coletivização ao nível pessoal ou das massas. Realmente, é pelo futebol praticado nas grandes cidades brasileiras, em clubes que nada têm de recipientes de ideologias sociais, que o povo brasileiro pode se sentir individualizado e personalizado. Do mesmo modo, e pela mesma lógica, é dentro de um time de futebol que um membro dessa massa anônima e desconhecida pode tornar-se uma estrela e assim ganhar o centro das atenções como pessoa, como uma personalidade singular, insubstituível e capaz de despertar atenções.” (DAMATTA, 1982, p. 27).
É necessário pensar o futebol como algo ainda mais complexo e poderoso do que um instrumento de ideologia das massas e do mercado. Propomos pensá-lo como possibilidade de desenvolver formas solidárias e cooperativas de organização da sociedade. Neste sentido, o futebol seria um esporte, uma prática corporal capaz de fazer refletir sobre diferentes maneiras de organização política e social.
Nesta perspectiva, o futebol organizado nas ruas, pelas comunidades locais, pode se tornar a vitrine de nossa identidade nacional. Esses times que se constituem nas relações sociais democráticas e solidárias, que objetivam a diversão e a integração da comunidade, surgem como exemplos de possíveis organizações políticas alternativas.
O futebol de várzea, de pelada, aquele que você organiza na sua comunidade, na sua rua, cumpre um papel importante na caminhada          rumo à superação de dificuldades e, principalmente, da personalização singular do brasileiro como povo característico e criador de uma cultura própria.

Quando nos colocamos como atores deste espetáculo, muitos problemas podem surgir, principalmente, se você analisar qual o grande público que participa dos jogos organizados nas ruas. Os homens ainda representam a maioria dos praticantes de futebol, embora isso venha mudando com uma freqüência cada vez maior. As mulheres têm conquistado seus espaços, o que pode demonstrar o que dissemos anteriormente, sobre a importância do futebol na discussão de problemas sociais. Nunca é demais lembrá-lo que o futebol deve ser praticado por toda a turma, e isso inclui todos e todas, meninos e meninas, sem distinção.
O jogador é um trabalhador como outro qualquer e, como tal, vende sua força de trabalho em troca de salário. O clube, como um ótimo capitalista, vê nesta mercadoria a oportunidade de obter lucro com a possível venda para outra equipe. Assim, a venda de jogadores, (mercadoria) que atuam no Brasil, para clubes internacionais.
O jogador, tratado como mercadoria por seu clube, vê, nesta transferência, a oportunidade de “mudar sua vida”, ganhar um ótimo salário e visibilidade mundial. O preço destes jogadores-mercadorias brasileiros é baixo em relação aos do mercado europeu, por uma série de fatores. Um deles é, sem dúvida, a péssima administração que cerca o esporte. O outro é a dificuldade financeira atravessada pelos clubes brasileiros.
A crise econômica, que assolou o Brasil, causa impacto, também, nas possibilidades econômicas dos clubes. Estes não têm muitas escolhas, a não ser vender seu jogador a preços estipulados pelos clubes interessados.
Outro provável motivo, que pode ser atribuído ao barateamento dos jogadores transferidos ao mercado internacional, diz respeito ao valor agregado à suposta profissionalização internacional.
Um exemplo pode ser a transferência do jogador Kaká, atuando na época pelo São Paulo Futebol Clube, para o clube italiano Milan. Ao transferir-se para a Itália, Kaká tratou logo de “ajustar” sua imagem, e vendê-la junto com seu produto. O futebol europeu, através das grandes parcerias entre empresas interessadas em mostrar sua marca no cenário mundial, tem como forma de trabalho a vinculação de seus jogadores à imagem de uma profissionalização que rende aos clubes milhões de dólares, e agrega ao valor do jogador quantias bem maiores que as pagas na compra de um jogador daqui do Brasil.
Nossos clubes não conseguem manter contratos milionários com as empresas mais ricas do mundo por um motivo muito claro, nossa população é pobre, temos milhões de problemas financeiros e, principalmente, ninguém confiaria neste mercado, levando em conta o jogo capitalista. As relações de mercado têm forçado os clubes brasileiros a se enquadrarem na lógica competitiva, da venda de mercadorias, assim como as demais estruturas da sociedade. Ficamos nós, torcedores (espectadores), “a ver navios”, com as mãos atadas pelo chamado mundo da bola, cada vez mais profissionalizado.
Finalizada nossa caminhada pelos bastidores do futebol, questões que não caberiam nesta reportagem, ficando como tarefa a serem pensadas, posteriormente relacionando-as com as características da região onde você mora e, melhor que ninguém, saberá discuti-las e problematizá-las “dentro” e “fora” das quatro linhas.

Referencial bibliográfico: Vários autores. Educação Física. Curitiba/PR: SEED, 2006, 17 a 30 pg.





Colégio Estadual José Lobo
Disciplina: Educação física
Professora: Mirna Moreira Batista
4º bimestre
3º lista de exercício
1º e 2º anos do ensino médio
Valor da avaliação até 2,0 pontos

Orientação da atividade avaliativa:
Ø Formar duplas, tirar cópia do texto, da lista de exercício e responder em uma folha de caderno, com cabeçalho.
Ø Utilizar caneta de cor azul ou preta, com letra legível. Não utilizar lápis ou corretivo nas respostas da lista de exercício.
Ø Entregar apenas a lista de exercício respondida, sem o texto, o texto fica com a dupla.
Ø O prazo de entrega em 48 horas.

Lista de exercício 
1.   O que o texto quer dizer sobre “o futebol como ópio do povo”?
2.   O que é ideologia? Como a ditadura utilizou o futebol como ideologia, na década de 60?
3.   O que acontecia na ditadura militar que vai de contra os direitos humanos?
4.   O esporte pode ser saúde, pode ser energia e integração nacional, então, por que o texto coloca com tudo verdade e tudo mentira?
5.   O Brasil, ganha como identidade da nação o Futebol, a partir da ditadura militar, porém existem diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu. Qual é essa diferença?
6.   O futebol é uma prática corporal capaz de fazer refletir sobre diferentes maneiras de organização política e social. Como o futebol pode se apresentar de formas diferentes?
7.   O jogador de futebol é como um trabalhador qualquer, vende sua mão de obra por um salário. Porém o jogador tornou-se mercadoria para os clubes. Nesta compra e venda, através das transferências entre empresas-clubes, o jogador vê a possibilidade de mudar de vida. Mas o que tem acontecido no cenário atual com os jogadores brasileiros?
8.   “Ao transferir-se (Kaká) para a Itália, tratou logo de “ajustar” sua imagem, e vendê-la junto com seu produto”. Porque o jogador Kaká fez este ajuste de imagem?
9.   O que poderemos descobrir se olharmos por trás da cortina de um espetáculo de futebol?
10. Faça um gráfico comparativo das 6 questões, da entrevista feita na primeira lista de exercício, utilizando o quadro quantitativo da segunda lista de exercício, a dupla pode fazer a caneta utilizando a regra.
Exemplo:
Questão 01
















Questão 02

 Questão 03














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